musical infanto juvenil em acto único. Estreou no dia 21 de Julho de 2007, no Auditório de Alfornelos, Amadora, Portugal.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Couto Viana sobre Almada

No Verão de 1937, tive uma excelente oportunidade de conhecer Almada. E perdi-a. O pintor, acompanhado pela mulher, Sarah Afonso, instalara-se em Moledo do Minho. (Por muito tempo, nas gavetas da papeleira do meu pai, andaram umas fotos em que se via o casal de artistas, durante essa estada, posando nas poldras de um riacho. Com a nossa mudança de Viana do Castelo para Lisboa, muitas coisas ficaram pelo caminho e, entre elas, esses retratinhos oferecidos à amizade dos meus, lembrando momentos agradáveis.) Julgo que a subida ao Norte foi para poder realizar, em sossego, os cartões dos vitrais destinados à Igreja de Fátima - minha vizinha lisboeta. Os dois pintores reataram, então, com meus pais, velhos laços de conhecimento e camaradagem. Com efeito, minha mãe fora colega de Sarah, no colégio de S. José de Cluny, em Viana. O pai da artista era oficial do exército, creio que em serviço num regimento aquartelado em Valença, e a filha passou a frequentar aquele colégio de freiras francesas (extinto aquando da implantação da República), onde minha mãe, vinda das longínquas Astúrias, a foi encontrar. Por sua vez, meu pai participara numa das exposições modernistas efectuadas no Jardim Passos Manuel, do Porto, em 1915 e 1916, em que Almada apresentou alguns trabalhos. Daí, o primeiro encontro entre os dois, que possuíam amigos comuns, igualmente expositores: o Diogo de Macedo, o António de Azevedo, o Balha e Melo, o Barradas, o Luís Filipe... Mais tarde, em 1919, quando da chamada revolta de Monsanto, de inspiração monárquica, meu pai foi detido juntamente com um irmão de Almada, também oficial do exército, e, durante a prisão (no Forte de Monsanto? Em S. Julião da Barra? No Lazareto do Funchal?), dando largas ao seu talento de caricaturista, fez-lhe um retrato que o autor d'A Cena do Ódio sempre me elogiou, com o maior entusiasmo. E, por certo, outras oportunidades houve, durante vinte anos, para meu pai e Almada se encontrarem, relembrando tempos heróicos de vanguardismo, medindo o caminho andado por cada um na arte e na vida. Ora nesse Verão de 1937, possivelmente em Agosto, o casal tinha estado em nossa casa e Almada dispusera, no chão da sala, os inúmeros cartões já terminados, cobertos de anjos e virgens, com a pureza e elegância do seu traço inconfundível. Meus pais e minhas irmãs, de joelhos (que melhor posição haveria para adorar aquela beleza?), ficaram tempo sem conta presos de um deslumbramento. Mas eu não pude partilhar da surpreendente revelação: os meus catorze anos estavam na Foz do Douro, entretidos a marchar em passo de ganso, para alcançar as insígnias de comandante de castelo da Mocidade Portuguesa. Claro que quando, acima, falei em conhecer o pintor, referia-me a conhecê-lo pessoalmente, pois Almada há anos que estava presente na curiosidade de minhas irmãs e minha, desde que nos habituámos a devassar a biblioteca paterna. Ao alcance das nossas mãos buliçosas e dos nossos olhos ávidos, lá figuravam o Pierrot e Arlequim, com o seu irritante i de cabeça para baixo, o Manifesto Anti-Dantas, tão divertidamente manuseado que acabámos por lhe arrancar algumas folhas, a colecção da SW, e ainda números de A Sátira, da Contemporânea e d'A Ideia Nacional. Nesta última, havia uma capa, desenhada por Almada, que eu preferia a todas as outras. E, qual não é o meu espanto, quando, muito tempo depois, ao ler A Engomadeira, a vejo citada pelo próprio autor: «Ora foi justamente o senhor Barbosa um dos primeiros que me veio dar os parabéns por causa de um Cristo por mim publicado numa revista de rapazes, A Ideia Nacional, cuja única particularidade para os outros foi ser verde e não ter cabeça.» Mas o que realmente o Cristo não tinha era rosto. A cabeça estava lá, pendente e coroada de cabelos em cachos e de espinhos. E continuava Almada, afirmando a sua saudável independência: «Justamente como se eu tivesse tido a ideia de fazer uma cabeça de Cristo e não um Cristo inteiro. Não me dirá o senhor Barbosa o que terá percebido do meu Cristo? Que fosse partida aos católicos? Julgou que era a minha adesão à República? Julgarão também os católicos que me merece alguma consideração essa arcaica restrição religiosa? Julgarão acaso os católicos que pretendi cantar-lhes a devoção? Julgarão os monárquicos também alguma coisa em seu favor?» Depois estalava uma farpa ao director da revista (Homem Cristo Filho): «Cristo, cuja única nódoa consiste em andar recentemente a dar extensão a apelidos de pessoas que não são muito extensas (...)»
A Engomadeira, dedicado a José Pacheco (aliás, o director artístico d'A Ideia Nacional), foi, segundo o autor, escrita em 1915, embora revista em 1917. É, por conseguinte, fruto dessa revisão o texto transcrito, pois o desenho de Almada aparece no número 21, do dia 20 de Abril de 1916, comemorativo da Semana Santa. A propósito destas datas, um devaneio: a camaradagem de meu pai com Almada e Eduardo Viana pode tê-lo levado a conhecer Sónia e Robert Delaunay, quando da estada destes em Vila do Conde ou Valença. Meu pai regressara da Alemanha, onde estudava engenharia, logo após a deflagração da I Guerra Mundial, e só partiria para o front, como alferes miliciano, em Junho de 1916 - sensivelmente na altura em que os Delaunay iriam viver para a vila raiana. Neste espaço de tempo, algumas oportunidades se ofereceram a meu pai de tomar contacto com o casal de pintores. E não teriam estes, pelo menos, solicitado os serviços de meu avô, ao tempo, vice-cônsul da França em Viana do Castelo? Agora, já é impossível desfazer dúvidas. E, afinal, a quem pode isto interessar? Não viajarei «no side-car da glória dos outros». Vou continuar:
Em 1946, vim, com toda a família, viver para Lisboa. Aqui, iria satisfazer um dos meus maiores desejos de literato furioso: ver e ouvir Almada-Negreiros. E digo ver e ouvir e não falar a, porque a minha doentia timidez não me permitia acarinhar a esperança de erguer a voz diante do último mago do Orpheu. Foi o caso que uma notícia de jornal anunciava a próxima realização, no Centro Nacional de Cultura, de uma conversa sobre arte, orientada por Almada e por Fernando Amado. Logo minha irmã Maria Adelaide e eu pedimos a nosso pai umas linhas num cartão de visita, apresentando-nos a Almada e rogando-lhe que conseguisse, da parte do Centro, deixar-nos assistir ao serão. Quando chegámos à sede do Centro Nacional de Cultura, instalada, então, num primeiro ou segundo andar do Largo de Trindade Coelho, Almada já lá se encontrava e recebeu-nos de braços abertos. Em cerca de dez anos (lembrava-me dos tais retratinhos que muita vez examinei, reverente), não se tinha modificado muito. Era, ainda, o «menino dos olhos de gigante», com aquele sorriso um tanto ambíguo que lhe descobria os dentes cerrados. Alto, magro, de uma elegância de bailarino, os seus gestos desenhavam no ar piruetas de arlequim. Iríamos apreciar, daí a pouco, como essas piruetas não tinham só movimentos, mas voz. Que extraordinária noite para os nossos olhos e ouvidos provincianos! Ali estavam, misturados connosco, rostos célebres, divulgados pelos jornais e revistas; nomes célebres, lidos na base de uma tela, no frontispício de um volume, no remate de um artigo ou poesia.
- Olha o Eduardo Viana!
- Olha, aquele é o António Dacosta!
Minha irmã e eu não nos cansávamos de reconhecer, entre a assistência, os célebres, e, no íntimo, prestar-lhes homenagem.
Esta conversa sobre arte está reconstituída nos números 5-6, da revista Cidade Nova (1950). Leiam-se as intervenções de Almada. E admirem-se. Brilhantes, certeiras, convincentes. E sempre inesperadas e afiadas, lembrando tempos heróicos das manifestações futuristas do Chiado-Terrasse. É fiel o relato publicado, no que respeita a Almada e aos outros intervenientes, salvo na contribuição de Fernando Amado (deve ter sido ele o revisor da prova para a revista), que aparece mais desenvolvida e mais bem ordenada. Nessa noite, Fernando Amado revelou-se-me o que, mais tarde, em convivência íntima, havia de confirmar: um homem com uma saliente dificuldade de expressão diante de amplo auditório, mas extraordinariamente fluente e aliciante na presença de dois ou três ouvintes. Eu já conhecia este escritor através do Aléo, onde viera publicada a sua peça O Retrato de César, e de algumas obras de doutrina monárquica. Creio que, no mesmo ano da conversa sobre arte, assisti, no Teatro do Ginásio, a um espectáculo em que Fernando Amado figurava como autor, actor e encenador, e era constituído por A Caixa de Pandora e uns debuxos teatrais, mais tarde interpretados por ele e por mim, num posto emissor particular. Não se tratava de uma estreia, mas de um reposição. Assim, não tive o ensejo de ver Rui Cinatti desempenhar o papel de Arlequim, de que ouvi dizer maravilhas. No espectáculo que presenciei, o poeta fora substituído. Se começo a falar de Fernando Amado é porque, através dele, cheguei a uma maior intimidade com Almada e ao orgulho de ter sido o primeiro intérprete teatral do genial desenhista. Mas um parêntesis: a minha convivência com Fernando Amado, as lições (teóricas) de teatro que dele recebi, a sua amizade (com que me honrou), merecem referências à parte. De momento, é Almada que me ocupa.
Em 1948, colaborei no Teatro-Estúdio do Salitre, como actor e... cenógrafo (ou, mais propriamente, maquetista). Estreei-me no dia 25 de Junho desse ano, no 7.º espectáculo «essencialista», que incluía peças de Claude-Henri Frèches, Carlos Montanha, David Mourão-Ferreira e Pedro Bom. Foram minhas as «indicações cenográficas», da Isolda, do David, e desempenhei o papel de Um Poeta Inspirado, na peça de Carlos Montanha, Fábula de Ovo. A partir desta data, e até à sua extinção, nunca mais deixei de participar nas actividades da salinha exígua do Instituto de Cultura Italiana. E foi assim que, um ano depois da minha estreia, tendo Fernando Amado obtido de Gino Saviotti autorização para levar à cena, no Salitre, dois originais portugueses (Antes de Começar, de Almada, e Casamento das Musas, do próprio Fernando Amado), aceitei de bom grado integrar-me no espectáculo, como intérprete da primeira peça e como ponto da segunda. O «bom grado» não chega para traduzir o meu entusiasmo (a minha vaidade, porque não?) em participar na estreia absoluta do dramaturgo José de Almada-Negreiros. Os ensaios realizavam-se ora no Teatro-Estúdio, ora em casa de Fernando Amado (que era o encenador), ali para o Campo Grande, no Palácio do Pimenta, que a Câmara de Lisboa depois adquiriu. Sentados no chão do gabinete de trabalho do encenador, com as paredes forradas de estantes, a Maria Antónia Joyce e eu (a Boneca e o Boneco do lever-de-rideau que, vinte e oito anos depois de escrito, ia conhecer finalmente o palco) obedecíamos, fatigados mas pacientes, às indicações sobre inflexão e mímica que Fernando Amado nos ministrava, rigoroso. Almada raramente assistia aos ensaios, mas sempre aprovava o trabalho feito. Sarah Afonso, autora dos figurinos que ela própria confeccionou, também só aparecia para as provas necessárias. Maria Antónia Joyce ia, a pouco e pouco, metamorfoseando-se numa boneca cor-de-rosa, com um espaventoso laço no chapéu, ao passo que eu desaparecia no trajo, tipicamente português, de pescador da Nazaré. Grandes máscaras de tarlatana, avolumando-nos as cabeças, encobriam-nos o rosto. E, na noite de 17 de Junho de 1949, Almada apresentava-se ao público (um público restrito, por culpa das dimensões da sala, onde se encontrava toute Lisboa artista e... um tanto snob, valha a verdade!) pela mão de Fernando Amado, no 11.º espectáculo do Teatro-Estúdio do Salitre. Nas vésperas, o encenador fora entrevistado pelo Diário de Lisboa, esclarecendo: «Antes de Começar é um lever-de-rideau, anúncio e promessa de espectáculo. "Antes de começar" o circo para crianças ou "antes de começar" a comédia do mundo, o público assiste, durante meia hora, a uma série de pequenas descobertas de linguagem teatral, feitas quase sem querer e como se fosse outra a ideia do artista. Aqueles a quem é familiar a obra de Almada-Negreiros não poderão deixar de recordar nessa ocasião trechos famosos da Invenção do Dia Claro.» A definição é exacta. Nada há a acrescentar, salvo o prazer quase físico que sempre domina o actor quando na posse de um texto em que a poesia lhe está, a cada momento, desvendando caminhos largos de compreensão e de transmissão. Antes de Começar foi recebido com entusiasmo unânime. A peça e a representação conseguiram agradar. Já Casamento das Musas teve o público (e a crítica) dividido, e para isso contribuíram os figurinos de Almada (quanto a mim, pouco felizes em gosto e originalidade - o galã vinha vestido como o conhecido anúncio do Porto Sandeman: capa, mazantini e botas, tudo negro), o cenário de Graziella Molinari - a filha de Saviotti - que se esforçara, sem bons resultados por «meter o Rossio na Betesga», ou seja, em implantar, num palco de pouco mais de dois metros e meio de altura, uma casa com dois andares praticáveis (lembro-me do ridículo que foi ver surgir à varando do 2.º andar a actriz Idalina Guimarães, de cabeça curva para não bater no tecto, gritando para o galã, que fazia esforços para não lhe chegar com as mãos: «Estás muito longe! Eu desço!») e, por fim, a interpretação de Fernando Amado, que foi para a cena com o papel em branco. (Do meu lugar de ponto, desesperei-me a soprar-lhe o texto, que ele, num justificável nervosismo, não conseguia ouvir.) No dia seguinte, os críticos dos periódicos foram benevolentes, sobretudo para a peça de Almada e para os seus intérpretes. Com uma excepção: Manuela de Azevedo, que, no Diário de Lisboa, registava: «Antes de Começar, escrito em 1921 por Almada-Negreiros que chama ao seu diálogo lever-de-rideau, não é verdadeiramente uma peça de teatro e, até, se empregamos a palavra diálogo é porque não temos outra forma de exprimir o monólogo a dois...
«Almada - que é um reinadio, um espírito original que um dia veio revelar-nos o segredo do nascimento de Homero - escreveu esta obrazinha no período pessimistamente revolucionário do seu estro e do seu talento incontestável. Não admira, por isso, que haja ali muita nebulosidade, muita coisa controversa e incontrovertível. O público, entre o qual nos contamos e como tal nos consideramos, fez esforços para atingir as verdadeiras intenções do autor, ao animar os seus "bonecos" de um sopro de vida humana. "O coração é uma boneca de seda". "Ela copiou-se em mim", "nós, os bonecos, somos a cópia de quem nos faz" - tudo isso talvez queira significar que os homens não passam de pobres títeres. Mas a nebulosidade para ter qualidade não chega a ter verdadeira altura filosófica: "tu não me viste bem por fora para saberes como eu sou por dentro". Depois, de repente, não se sabe porquê, fala-se do mar e da luz - "A luz não se engana, nós é que nos enganamos com a luz". E talvez por isso, ou sabe-se lá porquê, "Deus deu-nos um coração para não sermos tão pequenos como nós" - e "acredita no coração, a nossa cabeça tem de fazer o que ele quer".
«O carácter desta secção não permite mais largas referências às intenções antiteatrais de Almada-Negreiros que muito bem, diante da atitude dos seus ouvintes, pode ter concluído que as élites frequentadoras destes espectáculos continuam a ser uns cafres, por dentro, necessitando, por fora, dos banhos preconizados pelo Sr. Eça de Queirós...
«Embora. Desistimos da definição do seu trabalho tão bem colaborado por Sarah Afonso, que vestiu os bonecos, e pelos dois intérpretes, Maria Antónia Joyce e Couto Viana.»
E concluía:
«Enfim, o teatro precisa de ideias novas e de público melhorado. Mas parece-nos que não é com umas curtas coisinhas pseudo-intelectuais que se revelam autores, se criam actores e se conquista o público.»
Almada doeu-se muito com estes comentários (sobretudo, com aquele chamadoiro de reinadio) e respondeu, rectificando, que não tinha descoberto o nascimento de Homero, mas a sua personalidade, como demonstrara na conferência proferida na sede do Diário de Notícias (1944). Do mais que dizia da crítica, não me recordo, pois não guardei qualquer recorte. Do que me recordo, e vem a propósito, é da pergunta que Mário de Sá-Carneiro fez, certa vez, a Almada:
- De que é que você tem mais medo, neste mundo?
A resposta veio logo:
- Da estupidez.
Adiante.
O dramaturgo recém-estreado pareceu-me ter gostado do meu trabalho e encheu-me as mãos com todos os seus livros editados, desvanecendo-me com lisonjeiras dedicatórias. Passei então a frequentar-lhe o andar de S. Filipe Nery e, por vezes, a partilhar da refeição do casal, naquela sala de jantar iluminada por uma pintura de Amadeu de Sousa Cardoso. O teatro, por mercê do escpectáculo do Salitre, voltara a ocupar o espírito criador de Almada, que me leu duas peças, escritas por essa altura: Aquela Noite e O Mito de Psique. E as exibições do Teatro da Mocidade, por mim fundado e encenado, tiveram sempre a presença de Sarah e do marido, que me estimulavam com as suas opiniões. Aliás, Fernando Amado aí figurou, várias vezes, como autor, e a amizade entre os dois homens de teatro mantinha-se viva e actuante.
Quando me resolvia (pouco frequentemente) a subir o Chiado e entrar na Brasileira, lá encontrava o «Narciso do Egipto, poeta do Orpheu, futurista e tudo». Não, como denunciava o pseudónimo Delfim da Costa, «cangalheiro da cidade», «à espera que lhe vão dar os parabéns» pela «consagração da mediocridade na pessoa do Dantas que ele cantou sem ter ido parar à cadeia», mas à espera de aprender, com quem lhe chegasse ao pé, a vida, que, afinal, só ele sabia ensinar.
Certo dia (deve ter sido sob a égide da publicação das folhas de poesia Távola Redonda, ou seja entre 1950 e 1954), estando eu com o David Mourão-Ferreira e o Orlando Vitorino a uma mesa da Brasileira, e entrando em cena o mestre pintor, brada-lhe o Orlando:
- Ó Almada! Chegue-se, aqui, aos mais velhos.
Resposta dele, pronta, enquanto se sentava entre nós:
- Não sei quem são os mais velhos ou os mais novos. Eu, por mim, estou em idade escolar.
Parafraseando-o: de verdade, isto interessa a quem interesse Almada?
Em 1959, vem o tempo do Tempo Presente, e Fernando Guedes, seu director, e eu, do conselho de redacção, fomos pedir a Almada a peça Deseja-se Mulher, para publicar na revista e depois em separata. O pintor trabalhava então nos cartões das tapeçarias para o novo Hotel Ritz. Mas, no atelier, em frente à sua mesa de desenho, a parede estava coberta por uma reprodução fotográfica, em tamanho natural, do políptico de Nuno Gonçalves, de que ele descobrira a perspectiva dos ladrilhos. Enquanto esboçava os centauros dos cartões, não deixava de divagar sobre os mistérios dos painéis, para novas descobertas. Apontou-me uma delas: o molho de cordas, aos pés do santo, na tábua da direita, contornava, nem mais nem menos, o mapa de Portugal!
Deseja-se Mulher publicou-se nos três primeiros números de Tempo Presente. No terceiro, assinei um comentário à peça, aproximando-a de outras obras do escritor (Nome de Guerra e a conferência Direcção Única). No final do artiguito, confessava-me, na minha qualidade de empresário teatral, disposto a pô-la em cena. Mas esta glória caberia a Fernando Amado (como era justo!), na sua Casa da Comédia. Resignei-me. Os anos foram passando... para mim. Almada continuava o mesmo, sob uma larga boina espanhola e enfiada a magreza numa canadiana cor de mel. A cotação financeira da sua obra de pintor subira extraordinariamente. O genial retrato de Fernando Pessoa, que pintara para a saudade órfica dos Irmãos Unidos, atingiu o preço record de 1300 contos, num leilão excitante. Ele assistiu ao despique, sentado fora, na esplanada que dava para o Rossio. Alguém o felicitou pelo resultado. Respondeu almadamente: «Os Portugueses é que estão de parabéns.» E foi-se.
No dia 15 de Junho de 1970 (quase a fazer vinte e um anos a estreia de Antes de Começar), soube da sua morte. Fui vê-lo, no dia do enterro, à Basílica da Estrela. Um mundo de gente conhecida e desconhecida. O leilão dos Irmãos Unidos e uma entrevista brilhantíssima que dera num programa de TV (Zip-Zip), tinham-no arremessado, de novo, para a popularidade. À porta da capela mortuária encontrei o Padre António Dias de Magalhães, jesuíta (o pintor, não esqueçamos, frequentara o Colégio de Campolide), meu velho amigo, que me confidenciou: «Almada foi sempre Almada! Até a confessar-me os pecados... exagerou!»
Acompanhei o corpo aos Olivais; a um cemitério muito pequeno e muito limpo, refulgente de cal. O Sol, chispando sobre aqueles muros, iluminava mais o desfile grave. Que extraordinário dia estival! Não teria sido mais claro, se Almada o inventasse!
(3 de Junho de 1974)
in António Manuel Couto Viana, Coração ArquivistaLisboa: Verbo, 1977
pp. 173-184

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